
O meu avô era como um segundo pai.
Lembro-me das várias vezes em que vinha a nossa casa. Ansiava o momento em que ele aceitasse jogar às cartas comigo (burro ou pesca eram os mais frequentes), xadrez (que foi quem me ensinou) ou então o jogo da pesca dos peixes (em que cada um tem 1 cana de pesca e tenta pescar o maior número de peixes).
Quando ía a casa dos meus avós ainda jogava loto, que foram as únicas vezes na vida que o joguei.
Mais tarde, com a chegada dos computadores, era com ele que jogava solitário no Windows, ou mais tarde, Freecell e Virtual Pool. Era praticamente só com ele que fazia todos estes jogos, o que significa que foi muito com ele que aprendi a gostar de jogos de paciência e estratégia, a saber esperar e a ser introspectivo.
Vinha a casa dos meus pais frequentemente, muitas vezes sózinho, apenas para trazer as compras da semana. Na altura eu não percebia, mas fazia isso para ajudar, porque a situação financeira dos meus pais era muito complicada (2 filhos e apenas o meu pai a trabalhar com um ordenado médio).
Era ele que trazia os Corn Flakes (que mudaram para a marca Continente para minha insatisfação numa certa altura) e que trazia os iogurtes mix baunilha e cereais de chocolate (?nome?).
Sério, direito, confiável, perfeccionista e muito reservado, não gostava de falar do que não sabia. Ao mesmo tempo não era particularmente social e, nas vezes que o tentou ser, tinha falta de apoio da minha avó.
Era capaz de dedicar horas ou dias a arranjar um aparelho com pormenor (o que recebia críticas bem dispostas do meu irmão e do meu pai). Primeiro analisava todas as possibilidades, depois, de forma cautelosa, avançava mas sempre com um plano de segurança.
Por norma era sempre o salvador de inúmeros aparelhos que teriam o destino traçado não fosse as habilidades dele.
Foi assim em casa dele e também em casa dos meus pais, onde por várias vezes arranjou o fogão, o quadro da luz, aquecedores, aspirador, autoclismo, entre muitas outras coisas.
A garagem dele era o seu espaço. Tinha o seu carro (desde o Honda 600 até ao simplório Fiat Uno), todas as suas ferramentas e era aí que conseguía arranjar tudo.
Era essa também sempre a garagem do meu pai. A fonte de ferramentas sempre que eram necessárias, ou o último reduto para guardar coisas da minha casa, uma vez que o espaço era extremamente limitado.
Era ultra poupado, de tal forma que preferia não ter luz nem água na garagem a ter de pagar o aluguer de um segundo contador. Para a luz tinha 1 puxada de 1 cabo desde o 1º (.. 2.5º) andar até à garagem, que era ligado manualmente todos os dias.
Apesar de ter poupanças razoáveis, comprou um Fiat Uno (na altura em que o Punto chegou) desprovido de qualquer equipamento extra. Era um carro pobre (sem indicador de temperatura do motor, com 3 portas, sem fecho central ou vidros elétricos).
Simplesmente não comprava coisas supérfluas. Quando comprava tinha a certeza que era preciso e, por norma, comprava com alguma qualidade (se o preço assim o deixasse). Também aqui deixou-me uma marca profunda.
Ele e a minha avó davam-nos mesadas e quase sempre prendas em dinheiro. Foi isso que me incutiu a poupar e a ficar com 200 contos na conta quando tinha cerca de 13 anos (o que eu achava brutal).
Para além disso, foi graças a ele que comecei a fazer colecção de moedas e notas. Frequentemente trazia mais uma moeda de coleção (algumas de prata). Deu-me algumas moedas antigas (que juntei com as da minha mãe) e com isso adquiri o gosto pela colecção, organização e protecção (limpa metais coração!).
Eu e o meu irmão íamos para lá inúmeras vezes com o meu pai. Enquanto o meu pai fazia coisas com o meu avô (ou simplesmente os visitava) eu e o meu irmão dávamos voltas de bicicleta.
Inicialmente apenas nos acessos da garagem e pátio. Mais tarde nas redondezas, na grande descida até à ponte do comboio (e ciganos).
Devia ter uns 8 anos quando, em frente da garagem, caí com gravidade da bicicleta (dobrável... des-drobrou-se... ) e enfiei a manete do travão por dentro da perna (junto à anca). Foi aí que levei os meus primeiros pontos... creio que 10.
Devia ter uns 13 anos quando, também em frente da garagem, caí (na BTT) numa queda sem aparato e dei um mau jeito ao braço. Foi também a primeira vez que fiquei com o braço ao peito.
O amor por bicicletas são 1 também 1 herança dele (e claro, do meu pai). Não fosse a garagem e até podíamos nunca ter tido uma bicicleta (não tínhamos espaço no Porto). Foi também na garagem dele que aprendi a afinar e a arranjar a minha bicicleta ao pormenor.
Lembro-me particularmente bem de uma situação em que o meu pai o incentivou a experimentar andar de bicicleta. Ele, apesar de convicto de que claramente sabia, ficou receoso, mas ainda assim não rejeitou o desafio. Claramente teve imensas dificuldades em equilibrar-se e desistiu pouco depois com receio de cair. De certa forma esta experiência caracterizava-o. Ponderado, receoso, mas ao mesmo tempo algo convencido de que o tempo não havia passado e que continuava a conseguir fazer as mesmas coisas que conseguia no passado.
Depois dos meus 14 anos, o meu avô ía-me buscar várias vezes de tarde (talvez mais nas férias?) para passar o meu tempo. Mais tarde eu comecei a ir sozinho de bicicleta até à casa dele.
Fazíamos diversas coisas, mas o que mais me marcou foi a construção de um barco rebelo de madeira.
O padrinho do Nuno pediu ao meu avô para o montar então nós montamo-lo. Era um kit muito complexo. Tínhamos de cortar várias peças de madeira e, a parte mais complexa, foi a construção do casco, que exigia que dobrássemos a madeira (com calor e água alternados).
Foi um desafio que superamos em conjunto e trouxe-me um gosto especial pelo trabalho com madeira e que lhe dedico.
Os meus avós íam passar férias à feira ao Inatel (Feira) e nós nessas vezes íamo-los também visitar. Passeávamos frequentemente pelos jardins e o meu irmão até aprendeu a nadar lá na piscina.
Não ligava quase nada à TV. Preferia muito mais ir para a sua garagem, ou ir à missa, ou ler a biblia.
Na informática não se aventurou muito, claramente não se sentia muito capaz. Quando teve o primeiro computador em casa, ía lá por vezes jogar o seu solitário, mas não muito tempo.
Mais tarde o meu irmão deu-lhe 1 tablet chinês, que ele usava pontualmente para jogar, mas mais uma vez com bastante contenção. Por essa altura a saúde ajudava pouco.
Frequentemente queixava-se de dores ou mau estar, era bastante hipocondríaco, tomava vários medicamentos e ficava fácilmente impressionado com as bulas dos medicamentos (por diversas vezes não tomava um medicamento derivado aos efeitos secundários... e da influência da minha avó).
Não fazia atividade física (para além de uma ou outra caminhada) e tinha uma dieta muito restrita e com muito pouco sal (desde que tirou a visícula). Se comece algo diferente, rápidamente atribuía algum mau estar ao que tinha comido. Se por outro lado comece algo novo, como bacalhau com natas, na ignorância, até era capaz de se sentir bastante melhor nesse dia.
Ambos (o meu avó e avó) eram muito críticos, difíceis de agradar e algo mesquinhos (particularmente a minha avó, mas acabou por influenciar o meu avô). Tiveram algumas relações cortadas durante anos (por pequenas coisas) e tinham muita dificuldade em envolver-se com a comunidade (centros de dia, ..., porque haviam sempre muitas pessoas com defeitos).
Teve um AVC ainda cedo (2006?), que o levou para os cuidados intensivos.
Foi um choque para todos. Nos curtos minutos da visita diária ele chorava... nunca o tinha visto chorar. Eu tentava animá-lo com o meu jeito tosco, dizia-lhe que tinha de ter forças para depois ir para o FCP treinar... ele respondia positivamente (dentro das grandes dificuldades que tinha) e aquilo tornou-se no nosso tema de conversa a cada visita. Nenhum de nós estava preparado para aquela situação.
Voltou a andar (cada vez melhor), a falar (cada vez melhor) e recuperou em parte a sua vida, mas nunca totalmente. O meu avô que conduzia sózinho, ía à missa, ao banco, às compras, à família (tia Clara/Linda/Joaquim, a minha casa, ...), deixou rapidamente de fazer todas essas coisas.
O grande objectivo dele passou a ser conseguir não deixar de conduzir... e conseguiu sempre que o médico o fizesse acreditar que ainda conseguia conduzir, mas ele próprio começou a sentir que não tinha capacidade, apesar de ainda continuar a acreditar que sim, que conseguia.
Infelizmente os últimos 10 anos caracterizaram-se por um afastamento que eu nunca aceitei, mas nunca consegui contrariar. A minha vida passou a ser em Aveiro e o tempo que lhes podia dedicar passou a ser muito residual. Várias vezes reclamaram a minha visita, ao mesmo tempo aceitavam e queriam algo diferente.
Para piorar, com o meu irmão em Londres, ainda ficaram mais sós. Passaram de uma fase em que tinham toda a família perto e uma situação de saúde +- estável, para 1 situação mais solitária e com a saúde cada vez mais a degradar-se.
Valeram-lhes os meus pais, que nunca deixaram de passear com eles aos fins-de-semana (por muita dificuldade e limitação que isso lhes causasse). Era o passeio "dos tristes", em que muitas vezes iam apenas lanchar a uma das poucas pastelarias que davam o leite e a torrada à temperatura próxima do ideal ponto de torragem ideais (perto de escaldar e muito clara) que eram +- 4: leça, canidelo, 2 em espinho e feira.
Infelizmente uma aversão inexplicável dos meus avós pela minha prima Sofia que eu critiquei veementemente (e genericamente pela família da minha mãe) dificultaram ainda mais a possibilidade de convivência entre todos.
Sentia-se de alguma forma em dívida comigo (talvez porque teve de ajudar bastante o meu irmão na Horizontes da Terra e a mim não precisou). Por várias vezes dizia-me que depois me "recompensava", mas eu sempre dizia-lhe que não se preocupasse, que eu estava bem e não precisava de nada (a não ser mais tempo).
Recordo-me também que me tinha prometido uma boa prenda quando entrasse no 5º ano (o meu irmão recebeu um aeroporto Lego) e que mais tarde me prometeu fazer um campo de futebol de madeira e com pregos. Recordo-me em particular destas porque não foram realizadas e isso marcou-me. Até nisto agora vejo semelhanças. Por um lado não prometo o que não posso fazer, mas a minha vontade de compensar leva-me a tentar fazer aquilo que não consigo de facto e depois falho.
Nos últimos anos sofreu algumas quedas (principalmente em casa) que lhe foram deteriorando ainda mais. Começou a cair muitas vezes porque subitamente perdia forças e não conseguia aguentar-se.
Para além das quedas, vomitava frequentemente (excesso de medicamentos), tinha ataques epiléticos, réplicas de AVCs e diagnóstico de alzheimer, tudo isto levava-o ao hospital frequentemente.
A minha avó foi sofrendo com tudo isto (até chegou a partir uma costela por causa de uma queda dele) e quando ele perdeu mobilidade e começou a ter de usar fraldas, a minha avó chegou rapidamente ao limite limite e pediu ao meu pai que o levasse de lá de casa... e acabou por ir para um lar.
No lar (Casa Maior perto dos meus pais) teve mais estável a nível de saúde, mas defenhou em peso, em musculares e em termos sociais. Deveria comer mais (que rejeitava frequentemente), ter fisioterapia (que o lar deveria disponibilizar), deveria socializar mais (que ele rejeitava).
Se entrou a caminhar de forma razoável, saiu muito magro e sem capacidade para tal.
Se antes ele tinha algum medo da morte, em casa a situação degradou-se rapidamente até chegar a um ponto em que era muito difícil percebê-lo e que estava a gemer quase constantemente, o que o levou a a pedir para o deixarem ir (para além de tudo, estava com um tumor junto ao pulmão, liquido nos pulmões, rins a falhar, ...).
O meu pai (que tem quase 70 e infelizmente é insuficiente renal) já devia por esta altura estar numa situação bem mais tranquila, mas é só basicamente ele que tem de gerir tudo e claramente é demasiado. Faltou-lhe alguma organização, apoios e informação. Faltou-lhe também instituições de jeito que o ajudassem (hospital, centro de saúde, assistente social). Faltou muita coisa e isso ajudou a uma degradação rápida do meu avô.
A minha avó ultra-stressada por natureza dava-lhe a comida como se fosse uma maratona, sempre a dizer que cada colher era a última e que era só mais um bocadinho, várias vezes sem sequer elevar a cama... e o meu avô a engasgar-se frequentemente e com um pouco mais de líquidos a irem para os pulmões. Apesar de a criticarmos, fazia sempre igual...
Já a falar muito mal, a última memória positiva foi quando tivemos lá pela última vez com o Rodrigo há algumas semanas. Coloquei-o na cama do meu avô e houve uma última reacção positiva do meu avô. Foi simbólico... ele percebeu que a vida continua e isso pode tê-lo ajudado um pouco a viver com aquela situação.
Na última semana deixou de querer comer, foi para o hospital a soro, voltou para casa com oxigénio e os médicos foram claros a dizer que não duraria muitos dias.
Ontem dei-lhe festinhas e 1 beijinho de despedida. Gostava de lhe ter dito mais alguma coisa mas a presença do meu pai e irmão constrangeu-me. Ainda assim sinto que foi suficiente.
Hoje partiu ... e finalmente está em paz.
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